Indiferença da diáspora judaica ameaça Israel

estadao.com.br - Marcos Guterman, enviado especial a Washington

Sentido de ´comunidade´ entre judeus que vivem fora do país está em risco

WASHINGTON - A diáspora judaica - os judeus que vivem fora de Israel - encontra-se numa encruzilhada que pode ser definida como decisiva para o futuro israelense. Na reunião anual do American Jewish Committee (AJC), ocorrida em Washington no início de maio, boa parte dos especialistas concluiu que o sentido de "comunidade" entre os judeus de todo o mundo está gravemente em risco, o que, em última análise, enfraqueceria a própria defesa de Israel.

O encontro do AJC - a mais antiga organização de advocacia dos interesses dos judeus nos EUA, com 106 anos - focou dois aspectos gerais: o anti-semitismo disfarçado de anti-sionismo e o desinteresse dos judeus da diáspora pela suposta essência de sua ligação com Israel. São duas pontas de um mesmo problema, afirmaram vários debatedores do encontro, presenciado pelo estadão.com.br.

Para Ruth Wisse, professora de literatura yiddishe da Universidade Harvard, "o anti-semitismo é a ideologia de maior sucesso na história" e não pára de se reinventar. Ela acredita que o atual estágio seja o mais perigoso para os judeus desde a explosão genocida da Segunda Guerra Mundial.

Exageros à parte, o fato é que o anti-semitismo parece ter se consolidado como arma política, na forma do questionamento ao direito de Israel existir ou não. Criado na Rússia stalinista e sustentado durante décadas pela imprensa dos satélites de Moscou e pelos movimentos de esquerda na Europa, o anti-sionismo como forma disfarçada de anti-semitismo retomou sua antiga força, conferindo conforto moral aos que dizem ter "amigos judeus" mas defendem o fim de Israel. Para os participantes do encontro do AJC, no entanto, não é possível separar Israel dos judeus - e isso serve de recado tanto para os anti-sionistas quanto para os judeus da diáspora.

A somali Ayaan Hirsi Ali, polêmica muçulmana militante dos direitos humanos que vive na Holanda, disse em uma das palestras do AJC que o anti-sionismo adquiriu um enorme grau de sofisticação, inserindo-se, por exemplo, na luta contra o racismo. Abrigando-se nos movimentos de defesa de minorias, os anti-sionistas não só dificultam a vida de seus críticos, como também encontram crescente facilidade para arregimentar seguidores e espaço para expor suas idéias.

Ali e outros analistas concordam que o movimento contrário a Israel se expande de modo diretamente proporcional à proximidade da identidade israelense com o que se pode chamar de "Ocidente". O termo encerra uma série de idéias que têm encontrado forte restrição mesmo dentro do próprio Ocidente e hostilidade aberta fora dele, a saber: poderio norte-americano, que ameaça soberanias nacionais; globalização, que ameaça economias locais; e ocidentalização, que destrói valores religiosos e o sentido de comunidade.

Para os críticos disso tudo, Israel é a ponta de lança de um movimento que visa consolidar a hegemonia americana e ocidental sobre o mundo árabe-islâmico; logo, deve ser combatido. O "efeito colateral" dessa mensagem é o que Ali chamou de "racismo de baixa expectativa": os anti-sionistas cobram de Israel e do Ocidente que se comportem de maneira exemplar, enquanto os adversários de Israel e do Ocidente nunca fazem o mal - pelo contrário, eles têm uma espécie de "licença cultural" para apelar à violência.

Dessa maneira, o anti-sionismo se torna um instrumento político poderoso no campo da "resistência" ao Ocidente, aos EUA e aos valores capitalistas. Essa onda adquiriu ares de universalidade irresistível ao incluir até chefes de Estado que pouco têm a ver com a problemática de Israel, como Hugo Chávez, presidente da Venezuela.


Crise entre os judeus
Mas a defesa de Israel encontra problemas mesmo entre os judeus, e o que se viu no encontro da AJC em Washington pode ser enquadrado claramente no conceito de "crise".

"Temos de ajudar tanto os judeus como os não-judeus a entender que nós, judeus, somos um povo e também uma religião, e somos mais fortes quando somos as duas coisas ao mesmo tempo", disse o historiador Jonathan Sarna, da Brandeis University (Boston). Para ele, isso resume o impasse: ao desprezar o aspecto religioso e abraçar apenas a herança cultural do judaísmo, os judeus da diáspora fragilizam a noção de pertencimento a um povo ("peoplehood") e, assim, colocam em risco a própria essência de Israel.

Os debates em torno do "ser judeu" na diáspora revelaram uma série de implicações próprias de uma tradição cheia de controvérsias. "A idéia de que há um único judaísmo é errada", disse Leon Wieseltier, editor literário da revista The New Republic, ao tentar explicar por que nem todos os judeus manifestam apoio a Israel. A questão, afirmou ele, vai além da racionalidade: trata-se de "amar Israel" ou não. "O amor por Israel não é biológico", concordou a professora Wisse, de Harvard. "Temos de construí-lo para enfrentar o antiamor a Israel. A defesa de Israel não se dá só no Exército."

De acordo com essa premissa, os judeus deveriam defender Israel de modo abertamente político, racional. Para Wieseltier, isso implica em atitudes aparentemente dolorosas, como a de dar por encerrada a história do Holocausto, a maior tragédia do judaísmo moderno.

Enquanto o genocídio dos judeus europeus na Segunda Guerra Mundial continuar a ser base para justificar a existência de Israel, o país seguirá sendo visto somente como refúgio para os judeus, e não como parte integrante da comunidade internacional. Como a perseguição aos judeus arrefeceu de modo agudo, o argumento de que os judeus são vítimas e necessitam de proteção nacional perde força, razão pela qual Israel precisa ser visto somente como ente político, segundo Wieseltier. "O Holocausto é uma prisão", lamentou Wisse.

Uma vez que Israel deixe de representar a resposta do mundo ao Holocausto, inclusive para os próprios judeus, o questionamento sobre a existência de Israel, feito pelos anti-sionistas, deixará de fazer sentido. "Pergunta-se como seria o mundo sem Israel. Por que ninguém pergunta como seria o mundo sem a Itália?", compara Wisse.

Tão veemente quanto Sarna na defesa do "pertencimento" à nação judaica, Wisse afirma que somente quando todos os judeus falarem hebraico é que estará restabelecido o laço firme entre eles e Israel - o que indica o tamanho do desafio. A alternativa, para o professor da Brandeis, é sombria: "Se os judeus da diáspora perderem seu senso de ´pertencimento´ e não se sentirem mais responsáveis pelos outros judeus, de que modo o judaísmo, tal como o conhecemos, irá sobreviver?".

O jornalista Marcos Guterman viajou a convite do American Jewish Committee

Date: 6/2/2007
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