EUA defendem Israel como valor, diz grupo judaico

estadao.com.br - Marcos Guterman, enviado especial a Washington

Para o diretor do American Jewish Committee, o mais antigo grupo americano de defesa dos judeus, Estado Unidos apóiam Israel porque se identificam com o país

WASHINGTON - David Harris é o diretor-executivo do American Jewish Committee, o mais antigo grupo americano de defesa dos judeus, fundado em 1906. Em entrevista ao estadão.com.br, ele discutiu a natureza e o alcance do lobby judaico nos EUA, criticou o tratamento da mídia em relação ao Oriente Médio e disse que a luta pelo respeito a minorias, como os judeus, deveria ser de todos: "As atitudes em relação aos judeus refletem as atitudes da sociedade em que eles estão, refletem a vontade de defender ou não os direitos das minorias". Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

estadão.com.br - A defesa de Israel está contaminada por grupos estranhos à causa sionista?

Harris - Há muitas razões para defender Israel, ou mostrar amor por Israel. Os cristãos que defendem Israel o fazem de modo legítimo, assim como outros expressam amor por Israel porque se trata de uma nação democrática e pluralista. Por isso eu nunca usaria a palavra "contaminação". Isso é uma espécie de arrogância intelectual, que despreza pessoas religiosas e de certa forma questiona a legitimidade de argumentos baseados na fé.

estadão.com.br - Alguns críticos de grupos como o seu dizem que o lobby pró-Israel prejudica a política externa americana, ao fazer os EUA apoiarem Israel não importa o que Israel faça. O que o senhor acha dessas críticas?

Harris - Eu obviamente discordo. E discordo fortemente. Muitos críticos, sobretudo de fora dos EUA, não entendem que o apoio a Israel é disseminado entre os americanos. Não é limitado à comunidade judaica. A defesa de Israel se enquadra nos valores americanos. Como o apoio em outros países é muito menor, as pessoas se perguntam o que explica a diferença. A resposta mais fácil é que poderosos grupos judeus tentam dominar o debate. Como nós podemos dominar o debate num país de 300 milhões de pessoas? Noventa e oito por cento da população não é judaica. Noventa e oito. Como podemos dominar o debate? Nós participamos do debate.

Há um tipo de presunção, algumas vezes escondida, algumas vezes visível, de que há apenas uma comunidade judaica, que atua como uma coisa só. Bem, a verdade é que isso não existe. Sempre dizemos, como piada, que onde há dois judeus há três opiniões. Aqui mesmo você pode ver vários tipos de movimentos - à esquerda, à direita, religiosos, seculares - que defendem diversas posições dentro da comunidade judaica, tipo "aceitem o diálogo com os árabes", "rejeitem o diálogo com os árabes".

Os EUA nem sempre foram um país que apoiou Israel. De 1948 a 1962, os EUA não venderam armas para Israel. O Exército de Israel se fez com armamentos comprados de outros lugares, como a Tchecoslováquia. Ben Gurion, que liderou os primeiros anos do Estado de Israel, nunca foi convidado para ir aos EUA. Nunca. Não existe essa coisa de apoio automático a Israel.

O povo americano começou a entender que Israel é uma democracia, que é a única democracia real na região, que Israel é um parceiro confiável dos EUA, que durante a Guerra Fria Israel era um bem estratégico, e agora, na luta contra o islamismo radical, Israel voltou a ser esse bem. Dessa forma, há muitas razões para os americanos se identificarem com Israel.

A política externa americana é, sim, pró-Israel, mas também é pró-árabe. Muitos livros foram escritos sobre a Casa de Saud e as relações entre os EUA e o regime saudita, por exemplo. O Egito é o segundo país que mais recebe dinheiro dos EUA - o Egito! Os EUA têm um tratado de livre comércio com a Jordânia. Os EUA vendem armas para países do Golfo Pérsico. As pessoas vêem os EUA de modo binário - ou é tudo preto, ou é tudo branco.

estadão.com.br - O que Israel deveria fazer para ajudar a construir a paz no Oriente Médio?

Harris - Acho que Israel deveria continuar a fazer o que já está fazendo. Tivemos três primeiros-ministros em seqüência - Ehud Barak, Ariel Sharon e Ehud Olmert - que disseram clara e francamente que estavam dispostos a negociar uma solução de dois Estados com os palestinos. Infelizmente, não podemos fazer a paz sozinhos. E infelizmente, não importa o quão idealista você seja, você precisa de um parceiro, e esse parceiro não existe, a não ser na sua imaginação.

Do meu ponto de vista, Israel deve permanecer com a mão estendida e manter a ênfase no compromisso com a paz, mas, ao mesmo tempo, Israel deve preservar seu direito à autodefesa. Israel é um país tão pequeno que é estranho que haja gente que questione seu direito à autodefesa. Israel é um país amante da paz, um país que busca a paz.

Eu não sou um pessimista. Vivi para ver a paz com o Egito. Vivi para ver a paz com a Jordânia. Vivi para ver muitos contatos diplomáticos com vários países árabes. Eu acredito que a paz virá um dia, porque a paz é inevitável. Mas esse dia só virá quando os palestinos se derem conta de que sua liderança, até agora, os traiu. Traiu os interesses fundamentais do povo palestino.

Por que os palestinos ainda vivem em campos de refugiados? No Ocidente, as pessoas têm dificuldade para aceitar que haja um povo que possa ser instrumentalizado como os palestinos são, pelos países árabes e pelos líderes palestinos, que têm deliberadamente procurado inflamar o ódio e usar o povo palestino como arma permanente contra Israel e seu direito de existir.

O que o mundo parece não saber é que a ONU tem dois órgãos para lidar com o problema dos refugiados. Um é o Alto Comissariado da ONU para Refugiados [Acnur], que lida com todos os grupos de refugiados do mundo, exceto com um - o dos palestinos. Esses têm o UNRWA [sigla em inglês para a agência da ONU para refugiados palestinos no Oriente Médio]. A missão do Acnur é reassentar os refugiados. A missão do UNRWA não é reassentar os palestinos. Quando um dos chefes da UNRWA propôs reassentar os palestinos, ele foi forçado a renunciar, porque o mundo árabe rejeitou isso. Quem é capaz de entender esse conceito?

Não há uma única razão para manter os palestinos em campos de refugiados. A propósito, por que há campos de refugiados em Gaza? Gaza não é mais administrada por Israel. Israel deixou Gaza em setembro de 2005. E ainda há campos de refugiados em Gaza! Por quê?

estadão.com.br - O sr. acha que a mídia lida corretamente com as questões do Oriente Médio? O sr. acredita que haja distorções?

Harris - Depende. Em primeiro lugar, tenho enorme simpatia pela mídia, a mídia livre. Não é fácil ser jornalista, não é fácil cobrir assuntos controversos e fazer isso de modo equilibrado. Mas acho que o problema do Oriente Médio é muito complexo. Há narrativas que competem umas com as outras, e a mídia se tornou um elemento-chave nisso.

Acho que, de tempos em tempos, a cobertura é desequilibrada. E acho que isso acontece porque algumas pessoas que estão cobrindo o conflito não conhecem a história do conflito, ou têm um conhecimento apenas superficial, ou então elas já têm suas próprias conclusões, de que um lado está certo e o outro está errado, e não conseguem disfarçar isso muito bem. Como Israel ocupa as terras palestinas, e não o contrário, alguns dizem que Israel está errado, e os palestinos estão certos. Israel é o "ocupante", e os palestinos são os "ocupados". Algumas pessoas adotam esse discurso simplista, e a mídia vai refletir isso.

Israel é uma sociedade aberta e democrtica. Pode-se ir a qualquer lugar, entrevistar qualquer um, obter todo tipo de opiniões sem repressão do Estado. Você pode falar com grupos de defesa dos direitos humanos em Israel. Tente fazer o mesmo na Síria. Tente fazer o mesmo com o Hezbollah. Ou com o Hamas. Ou mesmo com a Fatah. Tivemos um bom exemplo na última guerra no Líbano. Gente que tentou cobrir o lado do Hezbollah foi aconselhado a voltar ao hotel em Beirute e ficar por lá.

Um outro exemplo: há algumas semanas, tivemos uma estranha votação no Reino Unido: a União Nacional dos Jornalistas - a União Nacional dos Jornalistas! - aprovou uma moção para boicotar bens e serviços de Israel. Bem, qualquer um é livre para boicotar o que quiser, mas a União Nacional dos Jornalistas escolher um dos lados de uma disputa política força-nos a nos indagar: podemos esperar que esses jornalistas sejam isentos na hora de cobrir a questão do Oriente Médio? Eu acho que não.

estadão.com.br - Qual é o principal desafio de sua organização?

Harris - O principal desafio é a cooperação regional, a globalização, a cooperação sem fronteiras, por entre legislações diversas, por entre identidades étnicas e culturais, vis-à-vis o fundamentalismo, o radicalismo.

A nossa preocupação é com o fluxo humano, o deslocamento de pessoas, que inclui judeus. Toda comunidade judaica, grande ou pequena, é importante para nós. Toda comunidade judaica tem o direito de viver em paz e em segurança. Isso não importa só aos judeus. As atitudes em relação aos judeus refletem as atitudes da sociedade em que eles estão, os valores dessa sociedade, refletem a vontade de defender os direitos das minorias ou não.

O jornalista Marcos Guterman viajou a convite do American Jewish Committee

Date: 6/2/2007
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